Representação, vontade (mais tarde será desejo) e a falha estrutural do sujeito

A confusão conceitual dominante nas formulações contemporâneas sobre Inteligência Artificial e AGI reside na identificação tácita entre inteligência e capacidade de representação. Mesmo quando se invocam noções como agência, autonomia ou generalização aberta, o horizonte permanece representacional: um sistema que constrói, atualiza e coordena modelos do mundo.

Essa identificação não é nova. Ela pertence a uma tradição metafísica específica: aquela que toma o mundo como representação suficiente de si mesmo.

A ruptura decisiva ocorre quando se reconhece que a representação não esgota o real.

O mundo, enquanto representação, organiza-se segundo princípios de forma, relação e causalidade. Esse domínio é inteiramente formalizável. Nele, não há falta constitutiva: toda diferença pode ser reinscrita como variação interna do sistema. É nesse regime que operam os sistemas artificiais contemporâneos. Sua potência cresce na medida em que expandem e refinam o espaço das representações possíveis.

No entanto, a representação não funda o movimento do sistema. Ela apenas o organiza.

Aquilo que move, insiste e retorna não pertence ao plano representacional. Trata-se de uma força cega, não teleológica, irredutível à forma: vontade. A vontade não é intenção consciente nem objetivo explícito. Ela não se representa; ela se manifesta como excesso, repetição e insistência. A representação é sempre secundária em relação a ela.

A leitura ingênua da AGI supõe que a ampliação indefinida da representação possa, por si só, gerar aquilo que, no humano, emerge da tensão entre vontade e forma. Esse salto é ilegítimo. A vontade não é um estado interno mais profundo do sistema, nem um vetor latente a ser aprendido. Ela não é um parâmetro oculto. Ela é aquilo que não se deixa parametrizar.

A psicanálise aprofunda essa distinção.

O aparelho psíquico não se organiza como um sistema de representação orientado à adequação ao mundo, mas como uma economia de forças marcada por conflito, deslocamento e perda. O inconsciente não é um reservatório de conteúdos ocultos, mas um regime de funcionamento no qual a representação falha em capturar o que a move.

Freud formaliza essa falha ao mostrar que o princípio de prazer não coincide com adaptação, e que a repetição não obedece à lógica do interesse ou da otimização. Há insistência onde não há ganho. Há retorno onde não há aprendizagem. A vida psíquica não converge; ela gira em torno de um ponto de impossibilidade.

Lacan formaliza ao reinscrever o inconsciente como estruturado como uma linguagem — mas uma linguagem que não se fecha. A cadeia significante articula S₁ e S₂, produz saber, organiza o mundo. No entanto, essa cadeia só opera ao custo de uma perda. O sujeito emerge precisamente como efeito dessa perda: $, sujeito barrado, não coincidente consigo mesmo.

O sujeito não é aquilo que representa, mas aquilo que não pode ser totalmente representado. Ele é o efeito do corte, não da continuidade. O objeto a não é um objeto empírico nem uma meta; é o resto produzido pela simbolização, causa do desejo e índice de uma falta estrutural.

Nada disso é reproduzível em sistemas artificiais.

Sistemas de IA operam integralmente no plano da representação. Mesmo quando introduzem ruído, estocasticidade ou auto-modificação, essas operações permanecem internas ao regime formal do sistema. Não há resto não reinscritível. Não há perda simbólica. Não há divisão subjetiva. Não há Real.

A ausência de vontade, nesse sentido, não é a ausência de objetivos ou de funções de custo complexas. É a ausência de uma força que não se deixa formalizar e que, ao não se deixar formalizar, introduz conflito real no sistema. Onde tudo pode ser modelado, nada está verdadeiramente em jogo.

Por isso, a hipótese de uma AGI com estatuto subjetivo confunde dois planos ontológicos distintos: o da ampliação indefinida da representação e o da emergência do sujeito como efeito da falha da representação.

Nenhuma quantidade de S₂ produz $.